Casal em uma paisagem romântica na Itália
← Todas as histórias

Histórias para viajar

O Último Barco para Positano

Compartilhar

Esta é uma obra de ficção original da Soul Viagem, inspirada em destinos reais.

A mulher de vestido amarelo segurou o pulso de Marina quando a sirene do último ferry soou no porto de Amalfi. — Leve isto até Positano. Não entregue a ninguém que saiba o seu nome. Antes que Marina pudesse responder, um envelope verde foi empurrado para dentro de sua bolsa.

Rafael surgiu com duas garrafas de água e a expressão impaciente de quem acabara de enfrentar uma fila italiana. — Vamos perder o barco. Marina olhou para trás. A desconhecida caminhava em direção à passarela, mas não carregava mala nem bilhete. Tinha apenas um lenço vermelho amarrado ao cabelo e o medo de quem esperava ser seguida.

A viagem deveria celebrar dez anos juntos. Três dias em Ravello, dois em Positano e nenhuma conversa sobre a proposta de emprego que Rafael recebera em Lisboa. Haviam concordado em adiar decisões. O envelope, porém, parecia ter embarcado justamente para impedir qualquer adiamento.

O ferry afastou-se de Amalfi sob um céu cor de cobre. Havia vinte e três passageiros: um casal inglês, quatro estudantes, um padre, um fotógrafo, dois funcionários, famílias e um homem de linho branco que não tirava os olhos do mar. A mulher de amarelo sentou-se no convés superior.

Marina abriu discretamente a bolsa. No envelope havia uma chave de bronze, uma fotografia de uma casa azul em Positano e um bilhete: “Meia-noite. Villa Nerano. Confie apenas em quem disser que o mar guarda o que a pedra esquece.”

Rafael leu por cima de seu ombro. — Vamos entregar isso à tripulação. — E dizer o quê? Que uma estranha nos escolheu numa fila? Um grito interrompeu a discussão. No convés superior, o assento da mulher estava vazio. Seu lenço vermelho boiava no mar.

O capitão reduziu a velocidade. Dois marinheiros revistaram o convés e os banheiros. Ninguém vira a mulher cair. O fotógrafo afirmou tê-la visto descer; o homem de linho jurou que ela nunca subira. O padre disse que conversara com ela na bilheteria, onde ela se apresentou como Bianca Russo.

Quando Marina tentou mostrar o bilhete ao capitão, o envelope havia desaparecido. A chave continuava no bolso interno de sua bolsa, mas a fotografia e a mensagem não estavam mais ali. Rafael encarou os passageiros. — Alguém nos viu abrir. — Ou ela entregou o mesmo envelope a mais de uma pessoa — Marina respondeu.

O ferry retomou o percurso. Minutos depois, o motor falhou. As luzes se apagaram e a embarcação ficou entregue ao balanço do mar. No escuro, uma voz sussurrou junto ao ouvido de Marina: — Jogue a chave na água se quiser chegar viva a Positano.

As luzes voltaram. Rafael estava a poucos passos, segurado por um estudante que dizia tê-lo encontrado perto da sala de máquinas. — O que você estava fazendo lá? — Marina perguntou. — Procurando sinal. — Dentro da sala de máquinas? Ele não respondeu.

No bolso do casaco de Rafael, ela viu a ponta de um tecido vermelho. Puxou-o. Era um lenço igual ao que flutuara no mar. Rafael fechou os olhos. — Eu posso explicar. — Espero que seja uma explicação extraordinária.

Ele contou que viajara à Costa Amalfitana meses antes, a trabalho. Conhecera Bianca ao investigar uma empresa que comprava hotéis históricos por meio de documentos falsos. A Villa Nerano era a última propriedade de uma família local. Bianca pedira ajuda para provar a fraude. — E você achou razoável comemorar nosso aniversário no centro dessa história? — Eu achava que tinha terminado.

O homem de linho aproximou-se. Chamava-se Enzo Vitale e alegava ser advogado da família proprietária da villa. Repetiu, sem sorrir: — O mar guarda o que a pedra esquece. Marina não entregou a chave. A frase correta dizia “quem disser”; qualquer pessoa poderia conhecê-la.

O fotógrafo, Luca, mostrou uma sequência de imagens feitas durante a partida. Numa delas, Bianca aparecia na passarela. Na seguinte, o vestido amarelo estava sobre o ombro de um marinheiro. A mulher nunca embarcara. Alguém se vestira como ela ou encenara sua queda depois de ficar em terra.

Marina ampliou a primeira imagem. No vidro da bilheteria, Bianca surgia refletida sem o lenço vermelho. Atrás dela, Rafael falava ao telefone. — A fotografia foi feita antes de eu encontrar você — ele disse. — Eu ligava para Bianca. Ela me pediu que não contasse nada.

O motor voltou a funcionar, mas o capitão anunciou que uma tempestade impediria o desembarque em Positano. O ferry seguiria até Sorrento. Um protesto percorreu o convés. Marina entendeu que a pane não fora para afundá-los; fora para mudar a rota.

Ela e Rafael desceram até o corredor de serviço. A porta da sala de máquinas estava aberta. No chão havia tinta amarela, uma tesoura e o bilhete roubado. A fotografia da casa azul fora rasgada em quatro partes. No verso, os fragmentos formavam um mapa de túneis sob Positano.

O marinheiro que aparecia na foto de Luca surgiu atrás deles. — Entreguem a chave. Rafael avançou, mas o homem sacou uma faca. Marina lançou os pedaços da fotografia por uma vigia. Enquanto ele se virava, Rafael derrubou a mão armada contra a parede. O marinheiro fugiu e trancou os dois no corredor.

Saíram por uma escotilha e chegaram ao convés inferior. Ao longe, as casas de Positano desciam pela encosta como luzes derramadas. Luca os esperava com uma pequena lancha de emergência já solta. — O capitão trabalha para Vitale — disse. — Se forem a Sorrento, a chave desaparece e vocês também.

Marina hesitou. O fotógrafo sabia demais. Então reparou que ele usava no pulso uma pulseira com o brasão da Villa Nerano. Luca explicou que Bianca era sua irmã. A mulher de amarelo não desaparecera: voltara para Amalfi ao perceber que os homens de Vitale estavam no ferry. O lenço era um aviso combinado.

Os três desceram para a lancha. Rafael soltou o cabo no instante em que o marinheiro reapareceu. A embarcação caiu na água e se afastou sob as primeiras gotas de chuva. Atrás deles, o ferry mudou de direção. Não seguia para Sorrento. Estava vindo atrás.

A tempestade alcançou a costa antes deles. Luca conduziu a lancha até uma pequena praia escondida entre rochedos. Subiram por uma escadaria quase vertical e atravessaram vielas silenciosas. À meia-noite, chegaram à casa azul da fotografia.

Villa Nerano parecia abandonada. A chave abriu uma porta lateral. No interior, paredes descascadas escondiam afrescos de limoeiros e barcos. Marina encontrou no piso um círculo de bronze com a mesma forma da chave. Ao girá-la, uma parte da parede moveu-se, revelando uma escada escavada na rocha.

No túnel havia caixas de documentos, fotografias e escrituras originais de dezenas de propriedades. A empresa de Vitale não roubava apenas hotéis; apagava herdeiros, falsificava dívidas e revendia a memória da costa. No fundo da última caixa, Marina encontrou uma certidão com um nome conhecido: Rafael Almeida.

Rafael confessou que sua avó nascera naquela casa antes de emigrar para o Brasil. A proposta de emprego em Lisboa vinha do grupo de Vitale. Eles sabiam de sua ligação com a villa e queriam contratá-lo para controlar o último herdeiro sem que ele percebesse. Bianca o procurara depois de encontrar a certidão.

— Então esta viagem nunca foi apenas nossa — Marina disse. — Eu queria que fosse. Queria contar tudo quando tivesse certeza. — Você continua confundindo proteção com silêncio. A frase atingiu os dois porque já fora dita em outras formas ao longo de dez anos.

Palmas lentas ecoaram no túnel. Enzo Vitale descia a escada acompanhado do capitão e do marinheiro. Luca ergueu a câmera. Vitale riu. — Fotografias não provam nada. — Transmissão ao vivo prova — respondeu Marina. Ela colocara o celular de Luca para enviar automaticamente cada imagem a Bianca assim que encontrasse sinal.

Vitale avançou. Rafael derrubou uma estante entre eles, bloqueando o corredor. Os três correram por um segundo túnel que terminava numa abertura sobre o mar. Não havia saída, apenas uma antiga plataforma de pesca e ondas batendo dez metros abaixo.

Luzes surgiram na praia. Bianca chegara com a polícia costeira. Vitale tentou voltar, mas o capitão, percebendo que fora abandonado, trancou a passagem e se entregou. Os documentos foram recuperados. A fraude que envolvia hotéis de Amalfi a Sorrento começou a desmoronar antes do amanhecer.

Bianca apareceu ainda com o vestido amarelo. — Desculpe pelo envelope. Marina devolveu a chave. — Da próxima vez, tente um telefonema. — Eu tentei. Seu marido não atende quando está com medo. — Ele ainda não é meu marido — Marina respondeu, olhando para Rafael. — E vai precisar aprender a falar antes de ganhar qualquer promoção.

Dois dias depois, Marina e Rafael voltaram a Positano num ferry comum, em pleno sol. A Villa Nerano seria restaurada e transformada em arquivo público. Rafael recusara o emprego em Lisboa, mas Marina não aceitou que ele fizesse isso por culpa. Decidiriam juntos onde viver — depois da viagem, sem segredos.

Sentaram-se no convés. Ele colocou sobre a mesa uma pequena caixa. Marina ergueu a mão. — Se isso for outro mistério, eu salto. Rafael abriu. Dentro não havia anel, mas duas passagens sem data. — Para onde? — Você escolhe. E eu conto tudo antes de embarcar.

Marina sorriu. À frente, Positano surgia entre o azul do mar e o branco das casas. O último barco daquela noite quase os separara. O seguinte não prometia respostas perfeitas, apenas a chance mais rara: continuar a viagem sem esconder o mapa.

Fim.

Do livro para o mundo

E se a próxima história fosse sua?

A Costa Amalfitana foi o cenário da aventura de Marina e Rafael. Positano, Amalfi e Ravello também podem fazer parte da sua próxima viagem.

Quero conhecer a Costa Amalfitana
WhatsApp